Voluntária do Radar e Policia de Segurança Pública com Liliana Barros e funcionária da Panificação das Mercês

20 / 08 / 2026

No Bairro Alto, há quem saiba quando alguém deixa de aparecer

Na Panificação das Mercês, no coração do Bairro Alto, o pão não é a única coisa que passa de mão em mão.

Há informações, memórias, nomes e preocupações que também circulam pelo balcão. Quem ali trabalha conhece muitos dos rostos que entram diariamente na loja, alguns há décadas, e, quando alguém deixa de aparecer, há quem repare.

É neste ponto de encontro, entre clientes habituais, vizinhos e turistas, que a Panificação das Mercês se tornou também um ponto de recolha de informação do RADAR. A ligação começou há vários anos, antes da pandemia, quando os mediadores do projeto passaram pelos estabelecimentos comerciais da zona a pedir apoio e colaboração. Liliana Barros recorda que foi assim que a casa passou a integrar a rede.

A lógica é simples: estar atento. “Nasci aqui, cresci aqui”, explica Liliana, lembrando que conhece algumas das pessoas que frequentam o estabelecimento desde que era criança. Essa proximidade faz com que o balcão da Panificação seja, muitas vezes, mais do que um lugar onde se compra pão. É também um lugar onde se pergunta por quem não aparece.

“Já aconteceu, sim, algumas pessoas que vamos deixando de ver e nós perguntamos”, conta. Pode ser uma senhora que vivia numa determinada zona e que deixou de aparecer ou alguém de quem se lembra e cuja ausência começa a causar estranheza.

A sinalização não acontece necessariamente através de procedimentos formais. Muitas vezes, funciona pelo ‘passa-palavra’. “Há sempre alguém que conhece alguém”, explica Liliana. São os vizinhos que entram na loja, alguém que viu determinada pessoa, alguém que sabe onde mora ou que tem notícias de quem deixou de ser visto.

Liliana Barros da Panificação das Mercês

Na Panificação das Mercês, esse contacto com a comunidade também permite perceber quando algo mudou. Liliana explica que, por vezes, é entre ela e a colega Mariana Gouveia que comentam entre si a ausência de alguém: uma pessoa que costumava aparecer regularmente e que, de repente, deixa de ser vista. “Será que está bem?”, perguntam-se. “Será que foi com algum filho?”

Também o policiamento de proximidade faz parte desta missão. O agente principal Paulo Missas, da terceira esquadra do Bairro Alto, é apresentado como uma presença conhecida tanto pela comunidade como pelo comércio local. Integra o Modelo Integrado de Policiamento de Proximidade (MIIP). Os agentes visitam regularmente os estabelecimentos da zona e mantêm contacto com os parceiros. Quando há uma sinalização, a informação pode circular nos dois sentidos.

Há, por vezes, uma inversão dos papéis. Em determinadas situações, é a própria polícia que não consegue chegar a alguém e recorre ao conhecimento local acumulado na comunidade. Na Panificação, podem saber se uma pessoa foi de férias, se está doente, se foi para o hospital ou, simplesmente, se continua no bairro.

O Bairro Alto, diz Liliana, é uma zona histórica, marcada também pela presença de uma população envelhecida. É uma realidade que torna este tipo de vigilância informal particularmente relevante. “É um projeto muito bom, muito positivo”, considera, sublinhando a importância de uma rede que permite ir acompanhando pessoas que, com o tempo, podem perder contactos e ficar mais isoladas.

Liliana Barros da Panificação das Mercês

Um balcão com memória

A história da Panificação das Mercês ajuda a perceber por que razão este estabelecimento ocupa um lugar particular na vida do bairro. Nas paredes da casa está exposta uma antiga página de jornal, datada de outubro de 1976. O título, “O pão de cada dia”, recorda um tempo em que a padaria já fazia parte da rotina quotidiana da zona.

Quase meio século depois, a imagem permanece ali como uma espécie de testemunho da continuidade do estabelecimento e da relação com os habitantes do bairro. A fotografia a preto e branco mostra uma fila de pessoas à porta da padaria, num retrato de uma época em que comprar pão era também um ato profundamente comunitário.

Outra fotografia, mais recente, mostra o pasteleiro da casa, vestido de branco e segurando um pão. A legenda recupera uma ideia que atravessa a história da Panificação das Mercês: “O aroma do pão é irresistível”. A fotografia recorda também a relação da casa com quem passa pelo Bairro Alto, sejam moradores, trabalhadores ou visitantes.

No interior da Panificação, essa relação continua a fazer-se todos os dias, através de gestos aparentemente banais. Um cumprimento, uma pergunta, a ausência de um cliente habitual. Pequenos sinais que podem passar despercebidos num estabelecimento onde entra muita gente, mas que ganham outro significado quando quem está atrás do balcão conhece os rostos e as histórias de quem vive à volta.

É aí que o RADAR encontra uma das suas forças: não substituir as redes existentes, mas aproveitá-las.

No Bairro Alto, onde a vida se cruza diariamente com milhares de pessoas, a Panificação das Mercês continua, assim, a fazer aquilo que faz há décadas: receber quem chega. Só que, agora, também está atenta a quem deixa de chegar.