Do isolamento à comunidade: o projeto Radar no Beato
Num território durante anos marcado pelo isolamento e pela ausência de respostas sociais, há hoje uma porta aberta que faz a diferença no dia a dia de dezenas de pessoas. No Beato, a intervenção comunitária — em articulação com o projeto Radar, da Santa Casa — está a reconstruir laços e a devolver sentido de pertença a uma população envelhecida e vulnerável.
A Associação Viver Melhor no Beato (AVMB), criada em 2011, nasceu para resolver problemas habitacionais ligados a cooperativas do pós-Expo 98. “Era uma questão estrutural, que ainda não está totalmente resolvida”, explica a diretora da AVBM, Amandine Bouillet. No entanto, o contacto com os moradores revelou fragilidades mais amplas, como isolamento, dificuldades económicas e falta de acesso a serviços, exigindo uma resposta mais abrangente.
Em 2020, a associação inaugurou um espaço comunitário que funciona como “segunda casa”, com cozinha, lavandaria, balneários e áreas de convívio, sobretudo para população idosa. Durante a pandemia, manteve-se como uma das poucas respostas no terreno, reforçando o trabalho de proximidade que já desenvolvia antes da integração formal no projeto Radar.
A intervenção reflete também os percursos de quem a lidera. Amandine, com formação na área social em França, tem um percurso ligado à intervenção em bairros vulneráveis. Já Mário André, mediador do Radar no Beato e Penha de França, trabalha há mais de duas décadas na área social, após experiência em contextos como casas de acolhimento e população reclusa.
Um dos impactos mais relevantes deste trabalho é ao nível da saúde mental. A existência de um espaço de convívio e acompanhamento regular tem um efeito preventivo significativo. “Se isto não existisse, muitas destas pessoas estariam hoje em consultas ou hospitais”, sublinham.
A própria comunidade desempenha um papel central: são frequentemente os vizinhos que sinalizam situações de risco e criam redes informais de apoio no dia a dia. Esse envolvimento tem contribuído para reconstruir relações num bairro onde muitos moradores deixaram de conviver após o realojamento.
Hoje, há novas rotinas, amizades e maior participação na vida local. Moradores que antes estavam isolados passam a circular, a participar e a sentir-se parte da comunidade.
Apesar dos resultados, persistem desafios, sobretudo ao nível do financiamento e da necessidade de reforçar a rede local. Ainda assim, no Beato, a mudança é visível: onde antes havia isolamento, há agora uma rede ativa que liga pessoas e constrói respostas, mostrando a importância da intervenção comunitária de proximidade.



