Na Papelaria Terreiro os clientes são tratados pelo nome
Há 20 anos no Parque das Nações, Maria Clara Santos conhece várias gerações de clientes. Desde 2019, que a Papelaria Terreiro integra a rede de Radares Comunitários do Projeto RADAR e mantém um olhar atento sobre quem vive no “bairro”.
Há pessoas que entram no espaço para comprar um jornal, jogar ou simplesmente conversar, e há quem repare quando essas pessoas deixam de aparecer.
Na Papelaria Terreiro, na freguesia do Parque das Nações, esta atenção faz parte da relação que Maria Clara Santos, proprietária do espaço, construiu ao longo de cerca de duas décadas com quem vive e circula no “bairro”. A ligação ao Projeto RADAR começou ainda antes da pandemia, a 31 de outubro de 2019, quando o estabelecimento passou a integrar a rede de Radares Comunitários.
O princípio é simples, estar atento às pessoas que fazem parte da comunidade e identificar alterações que possam indicar uma situação de isolamento ou vulnerabilidade. É uma lógica que ganha particular importância num local da cidade onde, apesar da existência de várias gerações de famílias, também há pessoas mais velhas que vivem sozinhas e com redes de apoio mais reduzidas.
“Eu acho que, se as pessoas souberem que existe alguém que se preocupa com elas, além dos familiares, é sempre bem-vindo”, explica Maria Clara.
A relação de proximidade estabelecida ao longo dos anos permite que determinados sinais não passem despercebidos. Uma pessoa que deixa de aparecer na papelaria, alguém que passa mais tempo sozinho ou um comportamento que se altera podem ser sinais que levam a uma conversa ou, quando necessário, à comunicação com as estruturas que podem dar resposta.
Maria Clara recorda o caso de um senhor que vive nas proximidades e cuja desorientação já lhe chamou a atenção. “Um senhor que mora aqui perto, às vezes não sabe qual é o dia da semana. Pior do que isso, é não ter a noção se é de manhã, se é de tarde ou se é de noite”, conta.
É nestas situações que a existência de uma rede local pode fazer a diferença. O RADAR assenta precisamente numa lógica comunitária, envolvendo comércio local, vizinhos, famílias e outras entidades, para identificar situações de isolamento, solidão não desejada ou outras formas de vulnerabilidade e permitir o encaminhamento para uma resposta adequada.
No entanto, a aproximação nem sempre é simples. Maria Clara reconhece que algumas pessoas mais velhas têm resistência em aceitar ajuda, sobretudo quando esta chega através de pessoas que não conhecem. “São pessoas às vezes muito teimosas em aceitar ajuda. Connosco, lojistas, estão à vontade. Agora com outras pessoas, que não estão habituadas rejeitam.”
O conhecimento acumulado pelo comércio local pode, neste contexto, funcionar como uma primeira ponte. A Papelaria Terreira é também um lugar de encontro, onde algumas pessoas permanecem depois de fazerem as suas compras, conversam e partilham pequenas histórias do quotidiano.
“É quase um gabinete de psicologia”, diz Maria Clara, quando fala das pessoas que passam pela papelaria para simplesmente ficarem algum tempo à conversa. “Temos clientes que passam por aqui só para contarem novidades ou partilharem algum acontecimento familiar. É uma relação de confiança que fomos construindo ao longo do tempo”.
Essa continuidade é particularmente visível nas famílias que vivem no bairro há várias gerações. Maria Clara conhece clientes que começaram a frequentar a papelaria quando eram crianças e que hoje regressam acompanhados pelos próprios filhos ou netos. “Já me vêm cá mostrar os filhos e ainda me lembro quando aqui vinham pequeninos para comprar os cromos”, diz.
A proximidade permite, assim, reconhecer não apenas quem entra pela porta, mas também quem deixa de entrar. E essa atenção ao quotidiano é uma das dimensões do trabalho dos Radares Comunitários. Mais do que substituir as respostas sociais existentes, a rede procura aproveitar relações que já existem na comunidade para identificar precocemente situações que poderiam permanecer invisíveis.
Criar relações para combater a solidão
Para Maria Clara, uma das formas de reforçar este acompanhamento passa pela continuidade das relações entre as pessoas acompanhadas e quem as visita. A sua sugestão é simples, que exista “regularidade e que, sempre que possível, seja a mesma pessoa a fazer as visitas”.
“Se for sempre a menina Amélia a ir a casa do senhor Rui, às segundas-feiras, e se for sempre assim, as pessoas já estão a contar e até são capazes de arranjar umas bolachinhas”, comenta com um sorriso.
Mais do que a visita em si, Maria Clara considera importante criar uma relação que permita estabelecer confiança. “Acho que era bom ser sempre as mesmas pessoas a fazerem a visita regular, para a pessoa sentir que naquele dia tem lá aquela pessoa, e há alguém para conversar e que se importa”.
A ideia resume uma dimensão essencial do trabalho de proximidade, a criação de laços. Para quem vive sozinho, a previsibilidade de uma visita, a possibilidade de conversar com alguém conhecido ou simplesmente saber que existe uma pessoa que vai voltar pode ter um significado que ultrapassa o momento da visita.
“Construir a relação com as mesmas pessoas é importante”, reforça. “O mais importante é criar laços que duram para a vida”.
É também através destes pequenos sinais, de uma conversa, de uma ausência ou de uma relação construída ao longo do tempo, que uma comunidade consegue estar mais atenta às pessoas que dela fazem parte. No Parque das Nações, a Papelaria Terreira continua a ser um desses pontos de proximidade, onde uma ida à papelaria pode ser apenas para uma compra, mas também uma oportunidade para perguntar por quem deixou de aparecer.
