O cabeleireiro onde se cortam cabelos, mas também se escutam vidas
O salão da Alice tornou-se um ponto de confiança e proximidade no bairro de Benfica. Há mais de seis anos que integra a rede o Projeto RADAR e já ajudou a identificar várias pessoas em situação de isolamento e vulnerabilidade.
No número 38, da rua República da Bolívia, em Benfica, há um espaço onde os espelhos refletem muito mais do que cortes de cabelo, penteados ou unhas. No cabeleireiro Namur, entre conversas do dia a dia e clientes que entram quase como família, há também um olhar atento sobre quem vive sozinho, ou de quem precisa apenas de alguém que repare na sua ausência.
Há mais de 35 anos naquele bairro, o salão liderado por Alice conhece gerações inteiras de moradores. E foi precisamente através dessa relação de proximidade que levou o espaço a integrar, há mais de seis anos, a rede do Radares Comunitários, do projeto RADAR, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e outras instituições e organizações da cidade que querem combater o isolamento social e a solidão dos mais velhos.
“Conhecemos muito bem as pessoas daqui. Muitas vêm cá há décadas. Percebemos quando alguma coisa não está bem, quando deixam de aparecer ou quando estão mais em baixo”, conta Alice.
Num bairro onde muitos dos clientes são pessoas idosas, o cabeleireiro acabou por se transformar, naturalmente, num ponto de escuta e confiança. Mais do que um serviço, tornou-se um lugar de encontro, de conversa e de atenção ao outro.
Alice admite que, ao longo destes anos, já reportou várias situações ao RADAR. Casos de pessoas mais velhas, sozinhas, com pouca rede familiar ou em situações de fragilidade que poderiam passar despercebidas sem esta proximidade diária.
“Às vezes basta falar cinco minutos para percebermos que aquela pessoa precisa de ajuda ou de companhia. Há pessoas muito sozinhas”, refere.
O trabalho dos parceiros comunitários é precisamente um dos pilares do projeto. Farmácias, cafés, juntas de freguesia, mercearias, coletividades ou cabeleireiros acabam por ter um conhecimento único sobre a realidade dos bairros e das pessoas que os habitam. São presenças constantes no território, capazes de detetar mudanças de comportamento, ausências prolongadas ou sinais de vulnerabilidade.
No Namur, esse acompanhamento faz-se de forma discreta, mas próxima. Há clientes que entram apenas para conversar um pouco. Outros procuram um momento de atenção que vai além do serviço marcado.
“Hoje em dia, as pessoas precisam muito de ser ouvidas. Às vezes vêm arranjar o cabelo, mas aquilo que precisam mesmo é de conversar com alguém”, diz Alice.
Em Lisboa, o envelhecimento da população e o aumento das situações de isolamento social continuam a ser desafios crescentes. Muitos idosos vivem sozinhos e sem uma rede de apoio próxima, o que torna ainda mais importante o papel das estruturas locais e das relações de vizinhança.
“Combater o isolamento começa, muitas vezes, em gestos simples. Num cumprimento diário, numa conversa ou na atenção de quem conhece cada pessoa pelo nome e percebe quando algo mudou”, diz.
Para Alice, o trabalho desenvolvido pelo RADAR tem sido essencial para criar uma rede de apoio mais próxima das pessoas e da realidade dos bairros.
“Temos de agradecer este trabalho do RADAR e da Santa Casa, porque muitas vezes são eles que conseguem dar continuidade à ajuda que nós, sozinhos, não conseguimos dar. É um apoio muito importante para estas pessoas”, concluiu.
