Conheça o Isidoro, o estagiário que dá voz ao RADAR
O trabalho devolve-nos autoestima e aquele sentimento de utilidade para com a família, a sociedade e o país que me acolheu.
A história de Isidoro cruza-se com a da Santa Casa num momento decisivo. Natural de Cabinda, Angola, viu a sua vida mudar drasticamente quando um glaucoma lhe roubou a visão e interrompeu o percurso profissional e académico. “Em Angola trabalhei no setor bancário. Quando o glaucoma estreitou o meu campo visual, acreditei que não voltaria a trabalhar. Hoje penso o contrário: uma pessoa cega consegue fazer o que qualquer outra faz num ambiente de trabalho”, afirma.
Em 2021, encontrou na instituição o apoio necessário para reconstruir a sua autonomia, passando por valências de acolhimento e pelo Lar Branco Rodrigues até estabilizar e reunir a família em Portugal. Hoje, com nacionalidade portuguesa, continua a investir na sua formação, da mobilidade às competências administrativas, com o objetivo de se inserir plenamente no mercado de trabalho.
Sendo cego, utiliza adaptações tecnológicas que lhe permitem trabalhar em igualdade com os colegas, apoiado pelas competências adquiridas na Fundação Raquel e Martin Sain. A formação durou cerca de três meses, e Isidoro está agora a caminho de dois meses e meio de prática no terreno. “Uma coisa é a formação teórica; outra é trazer esses conhecimentos para a vida prática. E aqui tenho conseguido fazer isso”, afirma.
O seu dia começa antes das nove da manhã. Prepara o discurso, organiza as campanhas de contacto e verifica se há ações específicas, como as visitas agendadas para os entrevistados, garantindo que cada chamada cumpre o lema do projeto: falar, ouvir e cuidar.
O impacto do seu trabalho é imediato. Isidoro recorda um dos telefonemas que mais o marcaram desde que iniciou o estágio: “Houve um dia que uma senhora me disse: ‘Ai, senhor, foi Deus quem mandou que o senhor ligasse para mim’. Fiquei comovido. Dá vontade de voltar amanhã e continuar.” E acrescenta:
“Tranquilizamos as pessoas e explicamos que estão a falar com a Santa Casa. Este nome passa confiança.”
No seu percurso, a presença da orientadora Catarina Almeida é determinante. Exigente e atenta, acompanha-o de perto, garantindo que a sua postura, clareza e confiança se refletem em cada chamada.
“Põe-te direito. Respira fundo”, diz-lhe muitas vezes, num gesto que combina rigor profissional com cuidado humano.
Catarina lembra a todos que Isidoro não é apenas um estagiário: é um homem com uma década de experiência na banca em Angola e com formação em Direito, interrompida pelo malfadado glaucoma que lhe roubou a visão e alterou o rumo da sua vida. “Ele deve ir acabar o curso. É uma pessoa com formação que precisa de uma oportunidade para se realizar como qualquer cidadão”, afirma.

Com o estágio a terminar, Isidoro expressa o desejo de continuar a contribuir para a instituição que o acolheu num dos momentos mais difíceis da sua vida. A sua história reflete o compromisso da Santa Casa com a dignidade e a participação plena de cada cidadão. “Quero pedir uma oportunidade de trabalho porque preciso mesmo. E espero que tenham gostado de mim”, diz com humildade.
Catarina reforça: “Ele precisa e merece. Como qualquer cidadão português, precisa de uma oportunidade para vencer na vida.”
Para Isidoro Puaty, o RADAR não está a ser apenas um estágio, mas sim o regresso à utilidade, à autoestima e à certeza de que a deficiência visual não anula a competência. Apenas ilumina outras formas de ver.





