Voluntárias do RADAR, João Santos e Inês

05 / 02 / 2026

Histórias que o Café do Sr. João não deixa cair no silêncio

No Casalinho da Ajuda, há um restaurante que é mais do que um isso. O Café Restaurante João, integrado no Projeto RADAR desde 2022, tornou-se um dos 173 pontos de vigilância comunitária existentes na freguesia.

Ali, entre o balcão de alumínio, as mesas e o cheiro a café acabado de tirar, João Santos e a mulher, Inês, fazem muito mais do que servir refeições: observam, escutam e sinalizam vidas que, de outra forma, passariam despercebidas.

Para João, aquele espaço é um posto avançado de vigia. “As pessoas já não vivem em comunidade”, diz com a gravidade de quem viu o bairro mudar. Afinal, está ali desde 1965. A conversa começa com a lembrança de uma notícia nacional (uma idosa encontrada morta após dois anos de isolamento), mas depressa aterra na realidade da sua rua, onde o inverno entra pelas janelas partidas das casas e a solidão se esconde atrás de portas que não se abrem.

O inverno dentro de casa

Um dos casos urgentes é o de uma vizinha cuja casa, comprada pelo marido com o esforço de uma vida, está hoje em ruínas emocionais e físicas. Um vizinho do rés‑do‑chão, num surto psicótico, partiu-lhe todas as janelas com pedras. Meses depois, ela e o filho de 55 anos (diagnosticado com esquizofrenia) vivem num frio permanente, sem vidros e sem proteção.

A tragédia não é apenas a falta de vidro. É a recusa do auxílio. A senhora não abre a porta às equipas do RADAR, nem ao agente Sousa (nome fictício) da PSP (uma dos parceiras do projeto), figura muito respeitada no bairro. O medo de que lhe levem o filho para uma instituição é maior do que o vento que atravessa a casa. João descreve a frustração de quem tenta ajudar e encontra sempre a mesma barreira: “Eles chegam lá para tocar à campainha, ela não abre.”

João fala de outro caso. Um cliente, morador no bairro, antigo funcionário público, agora reformado, mas sem capacidade de gerir a sua própria vida. Vive numa casa municipal sem água nem luz. No início do mês, come no café como qualquer cliente. Vinte dias depois, João vê-o a procurar comida no lixo.

“Eles não pedem, mas precisam”, desabafa. Tentam oferecer-lhe roupa, sugerem instituições, lembram-lhe que pode tomar banho nos balneários de Alcântara. Mas a ajuda é recusada, sempre. O cheiro intenso denuncia a falta de condições, e João, que não o quer afastar, também não sabe como o aproximar da ajuda certa.

Voluntárias do RADAR, João Santos e Inês

Um bairro que mudou, e muito!

A experiência de João Santos no Casalinho da Ajuda é um retrato cru de um bairro onde a comunidade se fragmentou. Aponta a “máquina do café em casa” e o telemóvel como os grandes responsáveis por terem substituído o convívio nas coletividades, onde outrora ele e os vizinhos passavam grande parte do tempo, sem hora para chegar a casa. Nota o aumento de pessoas em situação de sem‑abrigo a dormir “ali debaixo”, assim como quem vive em casas sem água, sem luz e sem rede de apoio.

Recorda ainda que, numa visita anterior do RADAR, um dos casos sinalizados acabou por ser retirado da rua por outra associação e colocado numa instituição. Mas, apesar de alguns sucessos, o número de pessoas em situação de vulnerabilidade na Ajuda está a crescer, e quem vive e trabalha no território sente isso todos os dias.

Para João, a solução não está apenas nos gabinetes. Está em bater à porta, insistir, criar relação. Por isso, é um admirador confesso do RADAR e do trabalho feito, diariamente, pelos mediadores. Mas num tempo em que os vizinhos são quase estranhos, o Café João tornou-se um dos últimos lugares onde o isolamento ainda é visto, ouvido e sinalizado antes que o silêncio se torne definitivo.

É um alerta. Um lembrete de que a solidão não acontece só nos noticiários. Acontece ao lado, na rua de baixo, na mesa do canto. E que, às vezes, basta um café aberto para que alguém não fique completamente fechado no seu próprio mundo.