Farmácia Probidade como “Radar” de uma Alcântara que envelhece
Em Alcântara, onde o “entra e sai” da Farmácia Probidade dita o ritmo do bairro, a saúde mede-se muito para além da tensão arterial. Aqui, entre receitas e conselhos, vigia-se a solidão e sinalizam-se os que o tempo parece ter esquecido. Fomos conhecer um dos 220 “Radares” da freguesia.
Nos contrastes que caracterizam Lisboa, entre freguesias mais ou menos calmas, Alcântara tem um pulsar. Na Rua de Alcântara, a porta da Farmácia Probidade não para. Durante o tempo em que esperámos para falar com Alexandra Neves, diretora técnica da farmácia Probidade, fomos testemunhas de um autêntico “entra e sai”. Não são apenas clientes; são vizinhos que ali encontram um porto de abrigo. No balcão, outras duas profissionais desdobram-se em atenções, tratando muitos dos que entram pelo nome próprio.
Este radar comunitário faz parte dos 220 que compõem a rede de radares espalhados pela freguesia, entre cafés, mercearias e outras farmácias, diz-nos Mariana Barroso, uma das mediadoras do RADAR em Alcântara.
Alexandra Neves recorda que a adesão ao projeto surgiu de forma natural, mas por provocação das mediadoras. “A ideia foi delas. Nós não conhecíamos o projeto, mas como temos uma interação muito grande com a Santa Casa e somos uma farmácia de grande proximidade, elas perceberam que fazia sentido.”
Embora o projeto RADAR tenha dado os primeiros passos em 2019, na Probidade a vigilância ativa consolidou-se no pós-pandemia, por volta de 2022. “Acho que foi no pós-covid que percebemos a real importância desta rede”, confessa a farmacêutica. Numa cidade onde o isolamento se tornou a outra pandemia, farmácias como esta tornaram-se postos de observação cruciais.

Mas nem tudo são histórias de sucesso imediato. O trabalho de um Radar é feito de equilíbrios. Alexandra fala com transparência sobre o maior receio de quem sinaliza: a reação de quem é ajudado. "O meu receio é se os utentes não aceitam. Já aconteceu sinalizarmos e a pessoa não aceitar. Temos medo que se ‘revoltem’ contra nós, que digam que não tínhamos nada que escrutinar a sua vida privada."
Este é o "lado B" do combate à solidão. Muitas vezes, a dignidade de quem sempre foi independente choca com a necessidade de apoio. "É como os sem-abrigo", compara a farmacêutica, "temos de ir devagarinho". Na Probidade, a decisão de sinalizar alguém à equipa de Mariana Barroso é precedida de uma análise cuidadosa da personalidade do utente. A confidencialidade é a regra de ouro e saber que a Santa Casa protege a identidade de quem alerta é, para estes profissionais, o que lhes permite continuar a vigiar sem quebrar o elo de confiança.
A diretora técnica explica que Alcântara é uma freguesia onde a população é "muito envelhecida e, acima de tudo, muito só". Por isso, realça a importância da estreita articulação com a Junta de Freguesia, que trabalha, por sua vez, de forma muito próxima com a Santa Casa. "Muitas vezes já sabemos que a pessoa está a ser acompanhada pela Junta. Atuamos todos em parceria."
Ainda assim, há espaço para melhorar, e Alexandra deixa um apelo: o feedback. "Gostava de saber o que acontece depois. Se a pessoa aceitou, como é que o processo evoluiu. Isso ajudava-nos a melhorar a nossa própria intervenção."
No "entra e sai" da Probidade, a maior receita continua a ser o olhar humano.

