Sraff da Farmácia Holon e voluntários do RADAR

30 / 03 / 2026

Farmácia Holon Morais Soares e RADAR: vizinhança que cuida para que ninguém envelheça sozinho

Na freguesia de Arroios, em plena Rua Morais Soares, há uma farmácia que vai muito além da dispensa de medicamentos. A Farmácia Holon Morais Soares afirma-se como um verdadeiro radar comunitário, acompanhando não só a saúde, mas também a solidão, as rotinas e as fragilidades de quem quer continuar a viver no seu bairro com dignidade e autonomia.

Neste espaço, há utentes que entram para levantar uma receita e ficam para conversar, pedir um conselho ou simplesmente dizer “bom dia” a quem já reconhecem como parte do seu quotidiano. A farmácia é dirigida pela diretora técnica, Elisabete Antunes, responsável pelo acompanhamento terapêutico e pelas sinalizações ao Projeto RADAR. No dia da visita, foi a farmacêutica Marta Teles quem nos recebeu, enquanto a equipa participava numa formação interna.

“Estamos numa zona muito habitacional, com muito comércio e uma população sénior que nos procura com frequência. Muitos utentes vêm não só pelos medicamentos, mas também pela proximidade”, explica Marta. Essa relação de confiança já existia antes da adesão ao Projeto RADAR, em 2019, mas ganhou nova dimensão com a integração na rede. “Percebemos ainda mais que a farmácia pode ser um ponto de entrada para identificar situações de vulnerabilidade.”

No dia a dia, são pequenos sinais que fazem a diferença: um cliente habitual que deixa de aparecer, dificuldades inesperadas em adquirir medicação ou alterações de comportamento. “Recentemente, sinalizámos o caso de uma senhora que deixou de vir há mais de duas semanas. Vive sozinha, não atende o telefone, e ficámos preocupadas”, conta. O caso foi encaminhado para o RADAR, que irá agora articular com a junta de freguesia para uma visita domiciliária.

A articulação no terreno é assegurada por Paula Rocha, mediadora do Projeto RADAR em Arroios. Com experiência em animação sociocultural e trabalho com população idosa, destaca o papel essencial do comércio local. “Farmácias, cafés, cabeleireiros ou lojas são os nossos olhos na comunidade. São estes parceiros que identificam mudanças e nos ajudam a chegar mais cedo.”

Paula Rocha, mediadora do Projeto RADAR em Arroios

Na freguesia, existem centenas de radares comunitários ativos, visitados regularmente pela equipa. “Tentamos passar pelos parceiros pelo menos três vezes por ano, atualizar contactos e perceber se há novas situações”, explica. A rotatividade do comércio e as barreiras linguísticas são desafios constantes, numa zona marcada pela diversidade. “Por isso, insistimos na proximidade e na comunicação acessível.”

A colaboração com a Farmácia Holon Morais Soares vai além da sinalização. Mensalmente, a equipa participa nas ações da unidade móvel do RADAR, que percorre diferentes pontos da freguesia. Marta Teles assume um papel central nessas iniciativas, dinamizando rastreios cardiovasculares e ações de literacia em saúde.

Marta Teles, farmacêutica na Farmácia Holon Moraias Soares

“Medimos tensão arterial, colesterol, glicemia e fazemos encaminhamentos quando detetamos valores alterados”, explica. Estas ações são, muitas vezes, a porta de entrada para novos utentes. “Há pessoas que conhecem o projeto ali, sentem-se acolhidas e passam depois a procurar a farmácia.”

A unidade móvel é também um espaço de encontro. Paula recorda um grupo de quatro senhoras que transformou os rastreios mensais num ritual de convivência. “Organizam-se, combinam atividades e cuidam umas das outras. Se uma falta, as outras avisam. Isto mostra como se criam laços que combatem o isolamento de forma muito concreta.”

O acompanhamento prolonga-se no tempo e reforça a confiança. “Há pessoas que já nos chamam diretamente quando precisam. Sentem que não estão sozinhas”, acrescenta a mediadora.

Para a equipa da farmácia, este trabalho trouxe uma nova forma de olhar para o balcão. “Estamos mais atentos, não só ao estado clínico, mas também à dimensão social. Quando há dificuldades na gestão da medicação, propomos soluções e articulamos com a rede”, refere Marta. Nesse acompanhamento, a diretora técnica Elisabete Antunes desempenha um papel central na ligação entre a farmácia, o RADAR e os serviços de saúde.

O impacto faz-se sentir também na equipa. “Há uma maior consciência de que não estamos apenas a dispensar medicamentos; estamos a cuidar de pessoas”, resume.

A mensagem final é dirigida à comunidade. “Quem ainda não faz parte, que se junte. Há pessoas que acham que já não têm nada para dar, mas quando encontram o grupo certo, renascem”, sublinha Paula Rocha. E deixa um apelo simples: “Criem relações, conheçam os vizinhos, envolvam-se. Combater o isolamento é uma responsabilidade de todos.”

Na Farmácia Holon Morais Soares, esse compromisso cumpre-se diariamente, entre receitas, medições e conversas que, muitas vezes, fazem toda a diferença. Porque envelhecer no bairro, com segurança e companhia, deve ser uma possibilidade real — para todos.