Idosos dançam alegremente em sala da Associação de Moradores do PER 11

02 / 04 / 2025

Associação de Moradores do PER 11 quer combater o isolamento dos mais velhos através da atividade física

É num território muitas das vezes esquecido pelos lisboetas, na freguesia de Santa Clara, que os vizinhos são mais do que pessoas que moram no mesmo prédio. São a Família e o abraço de quem já pouco tem. No bairro do PER 11, os dias são longos e os caminhos sinuosos, mas neste quadricular de prédios de betão existe uma associação de moradores que quer que o espírito de comunidade seja uma realidade diária.

“E um. E dois. E um, dois e três”. A contagem é sempre a mesma. Ao final do número três, um arrastar de cadeiras ecoa na sala, que ainda ontem era o espaço de um chá de bebé. De repente, uma voz grave prepara o ritmo: “estão prontas!”. A música aumenta, os ritmos começam a tomar conta do corpo.

“São velhos para muitos, mas para nós, são jovens que carregam a experiência e a ternura dos anos”, é assim que Gilberto Valério, mentor da Associação de Moradores do PER 11, apresenta o grupo de dança que hoje toma conta da sala multiusos da associação.

Num círculo perfeito, mais de uma dezena de pessoas, na sua maioria mulheres, prepara-se para uma aula de dança, com sons lusófonos e africanos. “A música é apenas o motor para as tirarmos de casa”, revela Gil, como é carinhosamente tratado por todas as “tias” que frequentam as aulas.

“Hoje vemos prédios, mas a maioria destas pessoas mora aqui desde a altura em que só existiam barracas. Vieram de outros sítios de Portugal e de países africanos, e claro que, como em todos os bairros como estes, nós somos todos uma família no bairro”, comenta o jovem que também nasceu por estas “bandas”.

E é desta maneira que, todas as semanas, a aula de ginástica e dança da associação são uma forma de “obrigar” os moradores mais velhos a saírem das suas casas e, por “uma hora, venham conviver connosco”.

O GANG (Grupo de Amigos da Natureza e Ginástica), nome com que Gil cunhou o grupo, é mais do que um conjunto de pessoas que procuram na associação um escape para saírem de casa. São amigos e vizinhos que combatem o isolamento social, tão característico de Lisboa, de porta em porta.

“Começámos com um pequeno grupo de pessoas, mas as coisas foram evoluindo, as pessoas foram dizendo umas às outras e como fazemos atividades também no campo de futebol aqui fora, o grupo foi crescendo e, hoje, somos mais que um grupo. Somos amigos e vizinhos que se preocupam genuinamente uns com os outros”, conta Gil.

A parceria com o RADAR foi mais um passo neste combate “para tirar as pessoas de casa”, assegura o mentor. “Nós conhecemos o projeto através da Gebalis e mal foi feita a apresentação do Projeto RADAR dissemos que queríamos ser um Radar Comunitário”.

Foi em 2021 que a Associação de Moradores do PER 11 passou a integrar a rede de Radares Comunitários, um dos mecanismos do Projeto RADAR que visa identificar e apoiar pessoas em situação de vulnerabilidade, em particular os mais velhos que enfrentam a solidão indesejada.

Enquanto Radar Comunitário, toda a equipa da associação acredita que esta integração no projeto é mais que um simples registo de participação. “Foi importante para as pessoas do bairro, e para os integrantes do GANG, saber que a Santa Casa também estava aqui. Foi como se alguém lhes dissesse que elas também eram importantes” partilha Gil, reforçando que “tanto o Projeto RADAR como a Associação, partilham os mesmos objetivos: voltar a dar vida aos mais velhos”.

Para o futuro, Gil acredita que é importante continuar a “apostar na colaboração entre todos”. “Nós não existimos sozinhos. Somos feitos de pessoas e para pessoas, mas sabemos que não conseguimos estar em todo ao lado ao mesmo tempo, e com este apoio do Radar, sabemos que não estamos sozinhos e basta um contacto e estão lá”, conclui.