Inês Neves, voluntária do Radar e séniores sentado à mesa no interior do Espaço AMI Olaias

25 / 02 / 2026

Uma porta que não se fecha: o AMI Olaias e a força da Comunidade

Ao entrar no Espaço AMI Olaias, no coração do Areeiro, percebe se de imediato que ali não se trata apenas de um espaço comunitário; é um refúgio quotidiano e personalizado. Dezenas de fotografias, desenhos e pinturas preenchem as paredes, mostrando os rostos e os trabalhos de quem ali vai para quebrar a solidão.

O AMI Olaias abriu em 2016, impulsionado por um financiamento BIP/ZIP, programa municipal que apoia projetos em zonas prioritárias. “Isto era um café. Aliás, ainda se nota nalguns detalhes”, conta Inês Neves, responsável pelo espaço, apontando para um canto de um balcão antigo. A equipa fundadora sonhou transformá-lo num ponto de convívio para a população sénior e, com o apoio financeiro que receberam, pintaram, ajustaram e começaram a chamar os vizinhos. “As pessoas vinham de manhã, passavam aqui um bocadinho, conviviam. Depois iam almoçar ao centro comunitário, que fica aqui mesmo ao lado.”

“A solidão é o que mais ouvimos aqui. E é assustador. Mas quando para aqui vêm, estão ativos e presentes”, diz Inês.

A poucos metros, reúnem-se vários serviços sociais: parque comunitário, balneário, apoio psicológico, atendimento social. O AMI Olaias, porém, cumpre uma função diferente: “É mais direcionado para os idosos, enquanto ali ao lado é para famílias com outras necessidades.”

Com financiamentos posteriores do BPI e da Fundação “la Caixa”, nasceram novas atividades: rastreios de saúde, visitas socioculturais, expressão plástica, sessões de sensibilização com escolas e parceiros do território, como a farmácia de Xabregas, a GEBALIS e o próprio Projeto RADAR.

À volta do AMI Olaias, a geografia social do território conta outras histórias. O Bairro Municipal, gerido pela GEBALIS, renovado recentemente, exibe fachadas brancas e amarelas. Já o Bairro Portugal Novo, muitas vezes apelidado de “bairro sem dono”, vive numa realidade mais frágil: arcadas fechadas transformadas em casas, pisos interditados, estruturas danificadas.

É neste território de contrastes que o RADAR entra, porta a porta.

Interior do espaço Espaço AMI Olaias

“O RADAR anda pelo bairro, bate à porta, explica o projeto, vê se a pessoa quer estar na plataforma”, relata Paula Rocha, mediadora do projeto. Na zona das Olaias, estão atualmente inscritos entre 100 e 120 idosos. São pessoas vulneráveis, muitas a viver sozinhas, sem família por perto. E é aqui que o espaço AMI Olaias desempenha um papel preponderante: telefona-lhes regularmente para saber se está tudo bem, ajuda com encaminhamentos para o centro de saúde, para o Complemento Solidário para Idosos, por exemplo, e orienta no uso de plataformas digitais.

“Hoje é tudo pela internet, e a literacia digital deles é quase inexistente”, explica Inês Neves. O AMI e o RADAR funcionam, muitas vezes, como tradutores do sistema.

Há ainda a pulseira “Estou Aqui Adulto”, da PSP, usada por vários utentes: um pequeno código que permite, em caso de queda ou desorientação, aceder rapidamente às suas informações clínicas e de emergência. “É uma segurança enorme.”

No AMI Olaias, a média diária de presenças no espaço ronda as nove a dez pessoas. Nem todos vêm sempre: uns vão à hidroginástica, outros têm consultas. Mas o lugar mantém um ritmo estável e familiar.

Mais do que um local físico, este ponto de encontro parceiro do RADAR tornou-se um apoio emocional e social. Um espaço onde há partilha de histórias, as opiniões são ouvidas e a autonomia se reforça.

“Ninguém tem de falar por eles”, defende Inês. “Eles têm voz. Só precisam de um lugar onde a possam usar.”

Depois de quase uma década, o AMI Olaias continua a provar que pequenos espaços podem impactar, e muito, a vida de uma comunidade, num trabalho que ganha ainda mais força através da articulação diária com o Projeto RADAR da Santa Casa, que identifica, acompanha e aproxima os idosos mais vulneráveis do território.